PALAVRAS, PALAVRAS DEMAIS.
Nada vai bem num regime político em que as palavras contradizem os fatos. Napoleão, o estadista, quando as proferiu jamais pensou que serviriam para expressar e prevenir a fragilidade dos anticorpos de nossa florescente democracia. Álvaro Vale, homem público de notável saber, contava-me que após visitar dezenas de parlamentos internacionais e provinciais, espantou-se ao constatar a diferença procedimental da dos nacionais e estaduais. Comprovou que os parlamentos brasileiros são os que mais falam e desperdiçam as palavras e suas essências. Do início do século a nossos dias, as palavras usadas e repetidas sobre as obras públicas inacabadas só tem servido para reconsolar uma esperança quase perdida, no longo tempo que permanecem inacabadas. São numerosos os exemplos. Algum deles vale apena repetir para consolidar as palavras escritas desta crônica que não contradiz os fatos. Lembrem-se, no Pará, a Hidrovia Araguaia Tocantins, os portos marítimos e fluviais, as rodovias Transamazônica, Cuiabá x Santarém, a PA ou BR 150 pelo Sul do Pará e outras federais e estaduais, a Transoceânica, a TransCametá para não deixar de exemplificar as inúmeras obras inacabadas dos setores da educação e saúde existentes. Encontro sobre encontros se espalha e as palavras que se leem frustram e decepcionam o povo paraense. Aniquilam suas esperanças. As obras inacabadas e outras prometidas dormem nos lençóis da inércia sufocada pelos desperdícios e da incompetência. As palavras, porém, tentam levantar a autoestima e a confiança. Perdem-se no tempo por entre o clamor de Mahatma Gandhi: melhor que falem por nós nossas obras do que nossas palavras. Os fatos das obras inacabadas retratam a ineficiência dos que as fizeram açodadamente. Esqueceram Perty, famoso planificador, cujas obras só se iniciavam com o dinheiro integral no “pé da planta”. Dá para proclamar-se: não se constroem obras de fins reprodutivos com palavras onde os fatos descobrem que as mentiras escondem as inacabadas. As verdadeiras, mesmo existindo, ficam sem o reconhecimento pelas palavras essenciais, face a subversão do uso das palavras nas festas promesseiras. Para os que ofendem a essência da palavra que as obras serão acabadas mas permanecem paradas, é de lembrar-se Churchill sorrindo: engolindo-se as palavras ruins que não se profere, jamais se estragou o estomago. Por isso, é bom para todos que tenham, nas palavras, a verdade sobre os fatos e que elas sejam o salutar conforto das festas e comemorações e não portadoras das renovadas promessas repetidas, por palavras e palavras, que já não mais convencem o irrealizável. É preciso aprender com as palavras de Herbert Spencer, sociólogo, psicólogo e filósofo que o amor é mais precioso que a vida, e a honra mais preciosa que o dinheiro. Mais preciosa que ambas é a palavra.
PS. Só agora aproveito, com a palavra gratidão, agradecer os milhares de parabéns, incluindo os dos amigos, em outdoor, pelo meu natalício. Faço-o como ensina Paul Valery, ensaísta e poeta francês: entre duas palavras simples, escolha a mais curta: obrigado.
Gerson Peres
Professor, advogado e político